Internautas que iniciaram a sua ‘existência virtual’ em meados da década de 90 — como eu — com certeza sabem do que eu estou falando. Já não garanto quanto aos que conheceram a internet nos últimos 5 anos.

Muito antes do boom chamado MSN, o programa de conversas instantâneas mais utilizado, ao menos aqui no Brasil, não era o ICQ, mas o mIRC (sigla de Microsoft Internet Relay Chat). No mIRC só tínhamos textos. Nada de fotos, imagens, webcam… Diversas redes de servidores ofereciam uma gama infindável de canais de conversação, com regras próprias e temáticas diversas, onde as pessoas se reuniam para conversar em grupo, ou de forma privada com outros usuários daqueles canais. Trocas de arquivos também eram possíveis.

 

 

No começo, mais parecia uma telinha do prompt de comando misturada às funcionalidades de janelas e botões do Windows. Com o tempo o programa foi ficando mais sofisticados, ganhando aparências diversas, sons midi, cores, scripts… Com um código aberto e simples, usuários mais familiarizados com linguagens de programação poderiam criar seus próprios ‘scripts’ para mIRC e compartilhar suas próprias versões do programa com outros mirqueiros. Nomes como Avalanche, Scoop, Ninja e t7ds (The Seven Deadly Sins) ficaram muito conhecidos… O servidor mais utilizado aqui era a Brasnet, que eu acompanhei desde o seu nascimento até a sua “morte”, em maio do ano passado (2007). Foi decretado o fim da rede às 23h58 do dia 10 de maio de 2007, com a queda total de seus servidores.

O crescimento dos adeptos ao MSN fez com que a rede Brasnet fosse perdendo o fôlego paulatinamente, até o abandono quase que completo de seus mais de 48 mil usuários. A rede que chegou a mais de 1 milhão de conexões diárias, em pleno auge da internet discada (sim, discada, porque banda larga ainda era lenda, quando o mIRC era o “fenômeno” das relações interpessoais virtuais).

Ainda hoje eu conheço pelo menos meia dúzia de pessoas que utilizam esta forma de conversar e trocar dados na internet. Embora, pelo menos aqui no Brasil, isto seja cada vez mais raro. Vejo isso como uma questão de saudosismo… É como ter uma máquina de datilografia em casa. Um capricho, cultivados por poucos, diante da imposição digital.

 

Mas o que isso tudo tem haver com o Linux?

Sinceramente, eu não sei de Linux e mIRC têm uma relação, mas ele surgiu no meio desse assunto da seguinte forma…

Num outro dia eu estava conversando com uma mocinha de 19 anos, lá na faculdade onde estudo, sobre internet, salas de bate papo e afins. Em um determinado momento eu comentei que nunca havia freqüentado as famosas salas de bate papo do Uol, Terra e afins. E disse que, antes de aderir ao MSN, eu utilizava apenas o mIRC e o ICQ. Surpreendentemente, ela até sabia o que era ICQ, mas nunca tinha ouvido sequer falar de mIRC, e soltou a pergunta lá do título: “mIRC? É um desses negócios da Linux, né?” Bem… Eu expliquei mais ou menos como eu disse lá em cima, na minha longa introdução, e ela disse outra coisa interessante: “Que sem graça ficar falando com um monte de gente sem nem ver a cara…”

Fiquei matutando isto vários dias… A gente fala com fakes no Orkut, com pessoas que usam cara de bichinhos no MSN, com gente que usa imagens de desenhos em outras salas de bate-papo… e o mIRC não tem graça porque não vemos a cara de quem está do outro lado?

Mesmo sem ver cara, eu fiz grandes amigos ali. Pessoas que até hoje são minhas amigas… Como o Junior Silva, a quem eu nem avisei ainda que este blog existe, mas que é o principal responsável por sua existência (esta parte eu explico depois, em um outro post…).

Hoje eu lembrei de novo dessa história e me veio um estalo. Sim… Eu entendo porque essa nova geração de internautas não vê graça em mIRC. É mais ou menos como ler livros. Com tantos avanços tecnológicos, a maioria das pessoas tem preferido ver as versões cinematográficas e novelescas das histórias, do que ler livros de 200, 500 páginas. Na leitura a gente só imagina, com as informações recebidas, como são as coisas. No vídeo recebemos uma versão pronta e acabada (seja com atores reais ou em desenho). O mIRC é o livro e o MSN a TV. E o nosso interlocutor pode até não ser mesmo aquele da foto, mas as pessoas se sentem ‘confortáveis’ por terem uma imagem pronta para ver.

 

   

 

O livro exige imaginação de quem escreve e de quem lê. Enquanto as novas mídias só exigem isso de quem produz. Se por um lado a tecnologia inspira um aumento da criatividade dos que trabalham por traz dela e por ela… Do outro ela ‘rouba’, cada dia mais, a interação imaginativa do usuário comum. Tal como o livro e a TV…